Eu sempre quis ser escritor. Quando eu era menino, fantasiava sobre um livro que escreveria, e cheguei a imaginar quantas páginas tinha, como seria a capa, como terminaria, aspectos do enredo e outras características. Mas nunca consegui ter serenidade suficiente para dedicar-me ao projeto.
Mais tarde, quando topei com o TDAH, achei que era caso perdido, que eu jamais iria escrever algo longo o suficiente para ser chamado de livro. Ao longo desse tempo, escrevi diversos poemas, algumas estórias curtas, inúmeras postagens em diversos blogues que escrevo onanisticamente pela internet afora.
Então me deparei – recentemente – com o NaNoWriMo. A maratona literária americana, National Novel Writing Month é um concurso que muitos poderiam qualificar como literariamente irrelevante. Não há nenhum prêmio concreto, nem em dinheiro, nem em notoriedade; nenhuma antologia com os melhores textos, nenhuma das novelas escritas é publicada, nem na íntegra, nem em parte. Ainda assim, o número de participantes cresce à cada ano.
Eu tinha um projeto engavetado: escrever um livro contando a história da Casa da Esperança, a organização em que trabalho desde que me conheço por gente. Sou um bom contador de histórias, assim me dizem as pessoas que assistem às minhas palestras, ou foram meus alunos nos vários cursos que dei sobre o tema. Nunca me faltaram pessoas me dizendo que eu deveria reuni-las em um livro.
Mas o que me falta, e depois do diagnóstico de TDAH, ficou ainda mais claro por quê, é motivação contínua. Se uma pessoa sem TDAH começa um projeto, ela tem mais combustível por um tempo mais longo, porque ela consegue adiar melhor as recompensas pelo seu esforço. Uma pessoa como eu tem que ser recompensada quase continuamente para continuar motivada.
Dois fatores fizeram eu tirar a poeira binária do meu projeto: Um deles é a Ritalina, apelidada carinhosamente de “Tia Rita”, à qual eu resisti durante muitos anos, e a partir de cuja utilização eu entrei num estado de espírito que acreditei nunca ser capaz de conhecer; O outro é o NaNoWriMo.
Sorte minha, que sei ler em inglês. O Propósito principal do NaNoWriMo é prover estimulação contínua e recursos para o escritor de volume. A tarefa é uma só: escrever 50.000 palavras, das 0:00 do dia 01 de Novembro às 23:59 do dia 30. E a qualidade? Fica pra depois. Dezembro é o mês da edição e do controle de qualidade. Novembro é o mês do trabalho duro.
Futilidade, poderia dizer um colega procrastinador. Escritores consagrados, no entanto, insistem em dizer que se aprende a escrever, escrevendo. Drummond costumava comparar o ofício de poeta ao do funcionário público, batendo ponto, sempre no horário, cumprindo expediente (ou ao menos deveria, né?).
Estou utilizando uma ferramenta pela qual a cada dia me apaixono mais, chamada Scrivener. Escrevi recentemente uma resenha deste aplicativo em outro blog. Como todo bom processador de textos, ele apresenta a contagem de palavras, mas como um adicional, um painel flutuante mostrando quanto falta para as 50.000 palavras, e quantas escrevi de uma mesma vez, desde que entrei no programa.
No site do NaNoWriMo, posso adicionar outras pessoas para acompanhar seu ritmo de escrita, e comparar com o meu. Além disso, posso também assistir a vídeos incentivando à uma escrita sem auto-crítica, e a perseguir primeiro a quantidade, para posteriormente, como um escultor, ir lapidando a palavra.
http://www.viddler.com/simple_on_site/112ef5ee
Por conta deste estímulo constante, estou a quase um quinto do meu objetivo, que passou a não ser mais escrever um livro. Isso é grande demais. Dividir para conquistar. Para escrever um livro, tenho que: 1) produzir um rascunho, uma primeira versão. 2) Editar e Cortar, para ter um texto mais claro e conciso; e 3) conseguir um editor interessado em publicá-lo. Desisti de escrever um livro, por ora.
Agora a única coisa que importa, é escrever 50.000 palavras. Até dia 30. Em Dezembro, quem sabe. Ou como diz Fernando Pessoa:
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã… Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, E assim será possível; mas hoje não… Não, hoje nada; hoje não posso.
Álvaro de Campos, “Adiamento”.

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