Um dia acordei e não sabia
Se eu era o que acordava ou ou que dormia
E assim, confuso, fui dar na praia
Pensar ante o mar que se me espraia
Sobre areia e pedra me acalmava.
Mas ainda dúvida persistia
Se vigília ou sono ocorria
Quando, súbito, uma mulher sombria
Uma tia, uma falecida tia
Estancou ante meu rosto e disse:
Morri de ter a vida triste!
E eu disse: Agora que estás morta
Que atravessaste a porta
Entre aqui e o que negam que existe
Diz-me: sabes me responder
Se sou eu quem te pergunta
Ou sou apenas a peça
Que o cérebro de alguém lhe prega?
Disse: esforços a ti não nega
Viver é sonhar
E morrer
É o despertar de um sonho
Eu sonhei um sonho ruim
E acordo agora amarga
Tu te sonhas, tu despertas!
Mas, se durmo e estás alerta
Como estamos conversando?
Porque tu, que estás sonhando
Estás meio acordado
Como quando, balançando
Não distinguimos estado
Este sonho é tua vida
Quando ela se for, o que viste
E amaste, e sentiste,
E Gozaste, e Sofreste
Serão fugaz memória
De um despertar celeste
Ou de um tormento atroz.
Quererás dormir de novo
Para ver se outra vez, em sonho
Ouves de Deus a voz
Que prega evangelho nenhum
Senão conhecer a si
Amar a si e aos seus
Louvar e agradecer a Deus
Por tudo que ocorra no sonho.
E algum outro meio há, eu disse
Além desse eterno sonhar?
Há, ela disse, mas esse
Não há de te interessar.
Serás nobre e compassivo
E vão te caluniar
Terás a conduta de um santo
Todos vão te apedrejar
Secretamente, serás perfeito
Mas cada um, em seu sonho,
Miserável e enfadonho
Julgará tão impossível
Tal completa liberdade
Que viverás escondido
Sonhando teu próprio sonho
Nas trevas da intimidade.
E que caminho é Esse, tia?
E como posso trilhá-lo?
Procura a quem te guie.
Como?
Alguém irá encontrar-te
Quando estiveres pronto
Um deles irá abordá-lo,
Um dos que nunca dormem
E estes sonhos teus
E aqueles que são sonhados
Revelar-se-ão Unidade
Unidade Deus
Uno em multiplicidade
E Plural em Unidade.






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